Alejandro

Meu pai era a própria natureza: calado, nos dava tudo,
mas nada além desse tudo.
Era a fonte de água que matava nossa sede,
e era a brisa fresca que renovava nosso ser.
Quando sofríamos, ele não nos medicava,
apenas nos abraçava, e chorava, como se fosse por nós.
Meu pai era o próprio mundo: flutuava sobre nós,
mas apenas flutuava, não sufocava, nada pedia.
Não nos mandava dormir, comer, estudar, obedecer,
apenas fazia isso para que pudéssemos ver.
No dia em que ele partiu, o mundo ficou mais feio,
e o meu mudo mais vazio, menos humano, mais hostil.
Meu pai nunca me pediu pra não chorar, não mentir:
ele jamais pediria o que eu não seria capaz de fazer!
Meu pai era como o ar: envolvia e alimentava a todos,
sem ligar pra diferenças, conhecimentos, família.
Ele repartia o pão dos próprios filhos com os que não eram filhos seus,
e chegava descalço em casa, porque o mendigo estava descalço...
Meu pai era a própria natureza: em silêncio, nos ensinou tudo,
até a dor da saudade, que não passa, que nunca cessa,
que nunca vai terminar.
Hoje, quando estou só, quando sofro, quando choro,
apenas a lembrança dele me acolhe e chora, sofre comigo,
apenas sua lembrança...mas isso é tudo,
mas nada além desse tudo.

Manuel Vázquez Gil




Obs- na foto meu pai, Alejandro e meus dois filhos Débora e Luan
(numa montagem, pois Luan ainda não tinha chegado nesta época).