Há um mundo inteiro a descobrir, e a cada dia descobrimos mais sobre cada vez mais coisas.       Descobriremos, um dia, o porquê da chegada desses anjos. Não a cura, que a bondade, a ternura, a paz e o amor jamais devem ser curados, mas exatamente o porquê da sua vinda.

           Neste nosso planeta azul as descobertas científicas têm seguido um rumo estranho: sabemos mais sobre o Universo distante do que do nosso interior. Chegamos mais rapidamente à lua do que ao nosso próprio estômago. Podemos construir naves espaciais para Júpiter, mas não sabemos como curar o câncer. O homem é a última grande barreira da ciência e da filosofia. E não evoluímos, como fazem animais e vegetais, para adaptação ao ambiente. Entre nós, os humanos, não são os mais aptos, mas os mais ricos que sobrevivem.

           Eis que, na soleira da nossa porta, chegam, cada vez em maior número, crianças especiais, ditas socialmente inadaptadas porque não comungam com nosso métodos gregários. Desde tempos indeterminados, aumentamos nossos muros e pusemos cercas elétricas neles e cães ferozes no quintal para defender nossas crianças que, agora, não podem brincar no quintal por causa dos cães ferozes, não podem sair à rua por causa dos muros altos, não podem encostar neles por causa dos choques.   Nem as nossas, nem as demais crianças.

           Universalizando a dicotomia, fazemos guerras para promover a paz, pagamos impostos para formar advogados que vão ser obrigados a defender os assassinos dos nossos filhos, chamamos de corruptos os que nós mesmos corrompemos. Pecamos todos os dias, e oramos para que o Cristo os perdoe, para reincidir no pecado e no desejo de perdão. Chamamos a isso civilização.

           Quando, finalmente, chega até nós uma dessas crianças, anjo puro sem maldade, numa espécie de evolução sagrada, nós nos assustamos. Seres que vêm para purificar o mundo, modificar nossos atos, ajustar nossos comportamentos, mostrar o caminho da verdade e do amor, e nos assustamos.       Devemos ficar assustados? Claro que não. Cabe-nos a tarefa singela de recebê-los, agradecidos por termos sido os escolhidos, os primeiros que vão aprender com eles. Tal qual Josés modernos, proteger nosso menino para que não machuquem as asas, frágeis e leves asas de anjo, com a tarefa insana de recriar um mundo que insistimos em manchar.

Pai nosso, que estás no céu,
sei que anjos são entes que têm a missão de nos cuidar.
Ensina-me, Pai: como se cuida de um anjo?