SOBRE ANJOS E MILAGRES – 1

           Quando eu era jovem (sim, já fui, não ria!), participava de um projeto da Irmã Shirley, uma freira Passionista do Educandário São Gabriel, de São Vicente, SP. Ela visitava prisões, e tentava ressocializar e encaminhar para uma vida religiosa homens que haviam errado, mas que estavam pagando e que sofriam. Em 22 de dezembro de 1981, estávamos no meu carro, ela, eu e o chefe da carceragem da cadeia de Praia Grande, levando roupas, calçados, brinquedos e alimentos que havíamos arrecadado, para fazer o Natal dos presos e seus familiares.

           No meio do trajeto, um ônibus desgovernado entrou dentro do meu carro e me lançou a alguns metros através do vidro do passageiro. Quando o resgate chegou, o médico constatou que eu tinha parada cardíaca e respiratória, e sangrava pela boca. Pediu para cobrir o “cadáver” e levou os outros dois para a Santa Casa de Santos.

           Parado atrás do meu carro, um rapaz ficou inconformado com morte assim tão estúpida, e convenceu o policial rodoviário que tentava organizar o caos a me colocar na Brasília dele. No Pronto Socorro mais próximo, médicos me ressuscitaram e me enviaram para a Santa Casa.

           Despertei no dia seguinte, com um cirurgião costurando meu braço esquerdo, e um estagiário auxiliando. Uma sala toda branca, gelada. Perguntei se estava no céu, o cirurgião bonachão retrucou: “nada, isto aqui é o inferno! Você está na Santa Casa”. Foi só então que doeu, mas como doeu....

           Oito costelas, uma clavícula, muitos dentes, um joelho, um tornozelo, os dois braços, tudo quebrado. Sem possibilidade de gesso, devido aos cortes provocados pelo vidro que eu quebrei na passagem. Uns vinte quilos mais magro, o mundo de cabeça pra baixo, mas vivo.

           Seis meses depois, dei os primeiros passos. Poucos dias depois já arriscava sair do apartamento, depois pegar o elevador e dar uns passos na calçada, depois ir até o mercado e comprar meio quilo de tomate, que era o que suportava. Voltei a trabalhar, retomei vida normal. Recuperei o peso anterior ao acidente apenas quinze anos depois. Estudei, tive uma filha, separei, casei de novo, tive um filho, separei, nada anormal, prova de que estava vivo.

           No dia do acidente, o padre que rezou a missa no presídio encomendou minha alma e me deu a extrema-unção à distância. Os jornais locais publicaram minha morte, no dia seguinte, na primeira página, dividida com o acidente que vitimou João do Pulo, no mesmo dia e hora, numa estrada perto de Campinas, e que o fez amputar a perna. Meus quinze minutos de glória!

           Passei a comemorar meu aniversário nesse dia. No próximo 22 de dezembro, completo trinta anos bem vividos. Trinta anos procurando o anjo da Brasília que salvou a minha vida. Jamais desisti da busca, e jamais vou desistir. Já encontrei o carro, mas nunca o motorista. Tenho a esperança de poder comemorar com ele até 2014, quando completo a idade de Cristo.

           Mas já encontrei alguém, que nada sabia sobre isso, e a quem amei com fervor, a melhor pessoa que passou pela minha vida, uma pessoa especial demais, e descobri, bem depois de descobrir meu amor por ela, que ela nasceu nesse mesmo dia. Pena com essa eu não possa comemorar....

Manuel Vázquez Gil