SOBRE ANJOS E MILAGRES - 2
              “No meio do verão passado, quando voltávamos da escola, escolhi o caminho mais longo, aquele que passa pela avenida da praia. Planejava tomar uma água de coco, tirar os tênis e correr pela areia, comer um salgadinho e chegar em casa ambos esgotados, sujos, fedidos. O verão é bom pra isso, dá pra ficar até mais tarde, o dia demora a acabar, pode-se andar descalço, tirar a camisa e aproveitar o carinho quente do sol. O plano era perfeito, ia ser um fim de tarde e tanto!

           Quando atravessamos a rua, você feliz preso à minha mão direita, puxando a mochila da escola com a outra mão, e paramos no canteiro central, quase tropeçamos numa mulher, muito moça, absurdamente embriagada. Morena clara, alta, magra, bonita, bem vestida, sandálias prateadas combinando com o vestido, cabelos abaixo dos ombros e uma bolsa de festa, também prateada. E embriagada a ponto de não conseguir se equilibrar, balançando ao vento, mesmo que vento não houvesse, como palmeira deserta.

           O que teria provocado tal estado numa moça tão elegante? Que limbos atormentavam sua mente? Que atos, palavras, sentimentos haviam contribuído para tal situação? Questões existenciais passavam pela minha mente, e eu não percebi que ela ia atravessar a rua, sem se dar conta que os carros estavam passando, céleres, às centenas...

           Algo fez com que estancasse, que refreasse o impulso de atravessar, e a moça balançou para trás, como que impulsionada pelo vento produzido pela passagem dos carros. Por momentos, parou o movimento de pêndulo descontrolado e, sem dizer qualquer palavra, olhou para baixo, na sua direção. E foi então que percebi que você havia soltado a mochila e segurava na mão dela.
           Levamos a moça bonita até o calçadão da praia, pedimos três águas de coco na barraca da Carmem, tomamos as nossas e fomos correr na praia. Quando voltamos, ela já tinha ido, sem deixar qualquer pista. Nunca mais a vimos. E eu nunca tive certeza de quem segurou a mão de quem.”

 

Manuel Vázquez Gil