Aquele dia

Vou pedir um momento de atenção pra falar da vida
Isso mesmo, da vida. Ora, a vida,
A vida é muito simples: uma sucessão de dias,
Que persegue noites, que persegue dias.
Nossa vida começa, e também termina,
Ou num desses dias, ou numa dessas noites.
Mas são tantos, tão inumeráveis, e tão sucessivos,
Que nem percebemos, quantas são as noites, e quantos os dias.
E – especialmente- não nos preparamos para aquele dia!
Ah! Aquele dia!
Aquele dia me tomou de assalto!
O universo todo saltou sobre mim e me pregou no asfalto.
De repente a vida ficou num suspenso
O coração parou, o sangue congelou, um torpor imenso.
Eu não sei se andei, se tentei correr, ou se fiquei parado,
Sei que, num instante, todo meu presente, foi desintegrado.
E era uma dor, tão aguda a dor, tão absurdamente intensa,
Tão devastadora, que já nem doía,
Mas que sussurrava, que depois da noite, sempre vem o dia.
Tem que vir o dia!

Quando amanheceu, ainda caminhava:
Sapatos na mão, os meus pés descalços deixavam pegadas
Frágeis, fugidias, tão indefinidas,
Que à primeira onda já estava apagadas.

Sofri, meditei, deixei correr o pranto,
A pena de mim mesmo era insuperável!
Já não havia luz, não havia sol, não havia mar,
Só havia a dor, pesada, insuportável.
Mas...por que a dor? Para que o choro?
De onde brotava o comportamento insano?
Tinha que refletir, racionalizar,
Mas qual! Não sou uma máquina, sou um ser humano!

A vida é assim, simples, corriqueira,
Um monte de dias que perseguem noites que perseguem dias.
Tão intermináveis, nunca percebemos,
Que a qualquer momento vai chegar o dia.
Pode ser o dia do grande desespero,
Dia da chegada, dia da partida,
Dia do diagnóstico de um filho autista.
O que fazemos dele é o que importa...
Naquele dia, depois de tanta dor,
Descobri o verdadeiro nome do que se chama amor,
E depois da noite não chegou o dia,
Não, não chegou o dia:
Chegou minha vida!

Caminhei de volta, entre sonho e nuvens, entre dor e paz,
E vi nos teus olhos a lucidez do anjo que sabe o que faz.
Assim, de mãos dadas, caminhando juntos, eu venci meu medo,
Eu me fiz capaz!


Manuel Vázquez Gil