(Primeira parte)


        Há três linhas básicas de pensamento para explicar as causas do autismo: a primeira, biológica, sustenta que é um transtorno genético, herdado dos pais, preferencialmente do pai, mais que da mãe; a segunda, comportamental, sustenta que a criança nasce sem qualquer problema, e o ambiente em que cresce, durante a primeira infância, é que causa o transtorno; a terceira tenta pacificar as primeiras duas, admitindo que o transtorno é genético, mas que o ambiente onde cresce pode agravar ou amenizar as consequências.

       A causa, ainda não é conhecida, a despeito de pesquisas desenvolvidas nos últimos anos, nos melhores centros e com as melhores cabeças. Há uma tendência mundial em aceitar a terceira linha, e a segunda, a do comportamento, está praticamente abandonada.

       Quando entendi que tinha um menino autista na minha casa, e depois de passar pelas fases inevitáveis de autocomiseração, luto, reconstrução, elaborei um projeto ao qual dedico, desde então, seis horas diárias, quarenta e duas semanais, ininterruptamente, registradas num livro-ponto. Em pouco tempo percebi que tinha que ter um ponto de partida, se quisesse chegar a algum lugar seguro. Ponto de partida significava escolher uma causa provável para o autismo, de modo a traçar um plano de trabalho.

       Em princípio, visualizei que, se estudasse tudo, lesse tudo, pesquisasse tudo que já se falou sobre o assunto, e se conseguisse compreender tudo, eu apenas saberia o que já se sabe. E isso não resolveria o problema. Por isso, saí da área da psicologia, da neurologia, da psiquiatria, e fui garimpar na filosofia, na pedagogia, na história do homem, pistas que pudessem levar a uma estrada distinta. Encontrei um enigma:

       O primeiro homem da ciência a falar sobre autismo foi Eugen Bleuler, psiquiatra suíço radicado na Áustria, professor de Freud e de Piaget, entre outros, no começo do século XX, para descrever a esquizofrenia infantil. Antes dele, nada. Nenhum compêndio de medicina, nenhuma obra de literatura, nenhuma descrição de caso, nada. A própria Bíblia, quando lida numa perspectiva psiquiátrica, descreve esquizofrênicos, neuróticos, psicóticos, bipolares, retardados, superdotados, tudo menos autistas.

       Recuando no tempo, fui encontrar nos gregos relatos sobre autistas. Dédalo, o construtor do labirinto, seu filho Ícaro e seu sobrinho Tales eram autistas, cada qual com um grau diferente do transtorno. Outras personagens surgem, na mitologia grega. Engana-se quem pensa que é apenas mitologia: os filósofos gregos eram verdadeiros psicólogos, que atendiam pessoas. Por ética, escreviam seus casos de modo a preservar as personagens. Ainda hoje, há terapeutas que consultam os mitos gregos para estudar casos seus.

       Nos gregos, achei o mote para meu trabalho. Autista, ensinam eles, é todo aquele que se faz por si só, o que se faz a si mesmo. Você já fez alguma coisa que nunca ninguém lhe ensinou, que nasceu da sua iniciativa? Você cometeu um ato autista. Essa seria a linha do trabalho que estava iniciando. Autismo não é um transtorno, é um dom a ser desenvolvido.