Filho:

Há luz, hoje, há muita luz se infiltrando por entre o verde da floresta,

E já é possível ver o sol vermellho e redondo lá em cima.

Quer dizer que já podemos guiar nossos passos para um objetivo.

Mas nem sempre foi assim, querido, nem sempre houve claridade,

E por muitos e muitos dias a noite tentou engolfar nossa esperança.

Houve um dia, há muitos anos, que o mundo ruiu à nossa volta,

E então todas as pessoas que deviam, por obrigação, ou por dever,

Foram embora. Ficamos sós, você e eu. Mas prosseguimos.

Todos estes anos, filho, carreguei você no colo, todos estes dias,

E meus pés sangraram nos espinhos que lançaram pelo caminho,

Mas seguimos, nós dois. Sabíamos a direção. Nós chegaríamos.

Arranquei obstáculos com as mãos, jamais hesitei ou desistiria,

E nunca senti cansaço ou desejo de parar. Não duvidei.

Mas, querido, quantas vezes me humilharam, e insultaram,

E quantas vezes sofri preconceitos, acusações, julgamentos.

E segui, cada dia mais convicto de que havia uma clareira,

Um oásis para recuperar as energias e voltar a caminhar.

Filho: eis a clareira!

Aqueles que se foram, e que julgaram, hoje estão de volta,

Mas apenas porque chegamos a algum lugar seguro,

E porque fica mais claro que erraram quando nos abandonaram.

Mas ainda temos uma longa estrada a percorrer,

E, ao reiniciar a caminhada, novamente estaremos só nós dois.

Mas aprendi, meu anjo, com a noite, com a dor, com a esperança,

Que pode haver mais claridade na escuridão total,

E mais alegria na dor carregada estrada afora,

E mais esperança nos teus olhos de amêndoas,

Do que no coração daqueles que partiram quando mais precisávamos,

E que, não contentes, lançaram pedras no caminho que seguimos,

Torceram sempre para que nunca chegássemos à clareira.

Mas chegamos, e as cicatrizes que a jornada tem causado,

Ou as intermináveis noites iluminadas pelas lágrimas,

Ou o cansaço que tornava a boca seca,

São medalhas, recompensas que apenas nós dois merecemos.

Sabe, filho, algumas pessoas que deveriam amar você,

Foram embora. E eu sinto muito por elas.

Porque não puderam carregar você, beijar, abraçar, cuidar,

E, ao mesmo tempo, ser cuidado, e abraçado, e beijado.

Quando tudo isto começou, apenas eu acreditei. E decidi.

E apenas nós caminhamos, lado a lado, incansavelmente.

Sei que ainda falta muito para chegarmos ao destino,

Mas agora sei, com certeza absoluta, que vamos chegar,

E que este vínculo que se forjou nesta aventura

Jamais será rompido, ou arranhado, ou esquecido,

Porque, assim como fomos apenas nós dois nesta jornada,

Assim seremos sempre nós dois noutras jornadas,

E sua mão me guiará, e minha mão guiará você,

Porque o que fizemos, o que fazemos, o que faremos,

Meu filho, é o que se chama amor.

A vida não tem sido exatamente de veludo, para nós,

Mas tem sido a melhor, a mais completa e a mais feliz.