Estava acontecendo novamente: a rigidez muscular, a ausência total, a baba, branca e espessa como a da epilepsia. Quantas vezes já tinha visto, convivido, quantas vezes havia corrido até à médica, tantas vezes ela tinha me falado que era stress, que passaria, e mesmo assim não conseguia conviver com essa cena, a cada repetição todo meu ser desmontava.

      Atônito, assustado, impotente, eu apenas chorava.

      A noite passada a cena parecia mais forte ainda, você com os joelhos dobrados, os braços cruzados, sentado sobre o chão frio, os olhos parados, sem vida. O mundo parecia não existir, nada conseguia tirar você daquele transe. Como das outras vezes, peguei você no colo, acariciei seus cabelos, suas costas, chorei, falei não sei quantas vezes que amava você, que jamais deixaria nada lhe acontecer.

      Você, ausente, imóvel, impassível, apenas molhava minha camisa com aquela gosma espessa.

    Decidi não desistir. Se das outras vezes colocava você na cama e ficava em vigília, dessa vez decidi internamente que seria diferente, que ficaríamos, os dois, abraçados até que algo acontecesse. Tinha que haver alguma coisa diferente, algum gesto, alguma luz...

      Não sei dizer quantas horas ficamos assim. Seus joelhos machucavam minhas costelas, seus cotovelos não me deixavam respirar. A baba escorria por sob a minha camisa, meu peito, minhas costas estavam todas molhadas, o líquido alcançava minhas pernas. Mas continuamos. Nós dois, parados no meio da sala, estátua única de dois seres cujo desespero beirava o insano, o surreal.

      Quando sua irmã chegou da faculdade, ficou assustada, mas compreendeu meu olhar. Perguntou se queria que ela pegasse você, eu disse não. Não queria quebrar o encanto, seja lá que encanto fosse. As pernas começaram a bambear, a câibra me invadiu, pensei em desistir, em aceitar o caminhar da natureza. Mas algo me impediu, alguma voz me soprava que deveria prosseguir. Custasse o que custasse, era proibido parar.

      Um tempo depois, não sei quanto, você relaxou, amoleceu, deixou cair os braços e as pernas, deitou a cabeça no meu ombro, a bica que jorrava da sua boca secou, você se entregou finalmente. Fiquei ali ainda um pouco, depois, com dificuldade, caminhei até ao quarto, deitei você cuidadosamente e me deitei ao seu lado. Fiquei ali, observando seu dormir tranquilo, sem sobressaltos, como se nada houvesse acontecido.

      Admirei você a noite toda, sua beleza de anjo, sua ternura, sua serenidade. Jamais havia visto tamanha personificação da paz. Minhas pernas ainda doíam, os braços pareciam quebrados, o corpo todo em frangalhos, mas a paz havia voltado, naquele momento a paz havia voltado. Até quando, não sabia, mas sabia que seria assim, sempre, cada vez que acontecesse, nada ira mudar aquilo.

      Sua irmã voltou, devia estar quase amanhecendo, veio trazer o café salvador. Abraçou-me, chorou comigo, chamou-se de louco teimoso e voltou para o quarto dela. Você sequer percebeu, entregue ao sono reparador, algo que fazia tempo você não tinha. Nem eu.

      Não saí dali, do seu lado, até você acordar. O sol já brincava alto, os pássaros já haviam parado de cantar na aroeira, a vida já corria solta lá fora quando você despertou. Alegre, bem-humorado, sem nenhuma sombra na face do que ocorrera na noite anterior. Sorriu pra mim, aquele sorriso econômico e raro que eu tanto aprendera a esperar. Abracei você, e você não se afastou, aceitou o meu abraço. Talvez não tenha entendido minhas lágrimas. Talvez tenha, nunca vou saber.

      Isso foi há quatro anos. Mil e quinhentos dias depois, nunca mais aconteceu, você nunca mais ficou rígido, a baba jamais voltou. O milagre se fizera.
      Naquela noite de angústia, de dor, de desespero, nós dois juntos, instintivamente, colamos os cacos do espelho do Lacan.