CRISÁLIDAS

           Você conhece a história: era uma vez um homem que assistia à agonia de uma lagarta tentando sair do casulo e se transformar em uma linda borboleta. Angustiado pelo sofrimento, ele, delicadamente, ajudou a borboleta a sair, abreviando sua agonia. Ela nunca voou: uma importante fase da sua transformação havia sido suprimida.

           Minha amiga Sinara Leite (que não me autorizou a citar seu nome, mas que mesmo assim cito), excelente fisioterapeuta, disse-me um dia que o ser humano foi programado para passar quarenta luas dentro de um útero. Aqueles que nascem prematuramente, terão problemas físicos e psicológicos futuros. Talvez nossas avós estivessem certas, mantendo seus bebês recém-nascidos imobilizados por algum tempo.

           Tudo isso para falar de uma moda contemporânea: pressionados pelo ritmo alucinante que a vida moderna imprime, estamos procurando cada vez mais abreviar a infância e a juventude de nossos filhos. Pais orgulhosos de filhos que, aos três anos, já sabem ler e escrever alguma coisa, criando um carga desnecessária sobre seres em desenvolvimento, já são do cotidiano. A infância abreviada vai cobrar seu preço mais adiante não de nós, mas das nossas borboletas prematuramente sacadas do seu casulo.

           O peso é ainda maior sobre crianças que estão fora da curva de desenvolvimento. Ansiosos por torná-los "normais", iguais ao colega do lado, seus pais colocam todas suas esperanças em milagreiros de plantão: dietas que, levadas a sério, destroem a capacidade de crescimento saudável; terapias que não deixam espaço para a bicicleta, o dormir mais um pouquinho, o brincar necessário à infância; drogas que tiram a natural intuição infantil e minam suas energias; atividades que nada têm a ver com a infância normal.

           O homem piedoso que se preocupou com a lagarta e sua metamorfose não gostava da lagarta, gostava de si mesmo. Queria abreviar ao máximo a espera pelo prazer estético que teria ao observar o vôo da borboleta. Não lhe passou pela cabeça que a natureza, na sua sabedoria, cuidava desse processo desde tempos imemoriais, e que jamais havia falhado. Tinha pressa e era arrogante, acabou perdendo o seu prazer. Mais do que isso, destruiu a vida de um ser cujo maior talento é voar, criou um ser para todo o sempre deficiente.

           Nosso ritmo é apenas nosso, de ninguém mais, e é isso que faz do ser humano o animal mais fascinante deste planeta. Pedimos sempre que respeitem nosso ritmo, quase nunca respeitamos o do outro, é isso que faz do ser humano o animal mais presunçoso deste planeta.

           Nascer dói. Crescer dói. Só nós podemos passar essa dor, ninguém mais além de nós. É essa dor apenas nossa que faz com que possamos compreender a dor alheia, e nos torna mais humanos. Esperar pacientementem que o outro complete sua metamorfose e amá-lo a cada fase, a cada passo. Sem pressa, o tempo é dele. Aceitá-lo como é enquanto lagarta, acompanhar sua evolução e aceitá-lo a cada mudança, a cada passo. Um dia, para recompensar-nos, voará
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Manuel Vazquez Gil

tela: "Metamorfose de Edna Feitosa