“Enquanto falo com você, você olha nos meus olhos. Minhas palavras penetram nos seus ouvidos, são levadas até seu cérebro e lá são filtradas por tudo que você conhece ou sabe ou lhe foi passado como verdadeiro durante todo o seu aprendizado. Enquanto você me ouve, eu fico olhando nos seus olhos. A expressão contida neles, ou em torno, me diz se você acreditou nas coisas que eu lhe contei, se acha sinceramente que estou dizendo a verdade. Desse feedback fisiológico eu tiro as próximas palavras, baseadas no princípio de que eu realmente necessito que você acredite em mim. É o processo mágico da comunicação, base concreta do aprendizado social.

Mas...

              ...e se você não possuísse os tais filtros sociais? E se você fosse simplesmente intuitivo, como se adivinhasse a verdade pura e nua no simples fluir das palavras? E se você, enquanto eu falo, sequer olhasse nos meus olhos? Como é que eu poderia aferir se a comunicação estaria sendo eficaz, se você realmente estaria entendendo o que lhe falo? Se você não se fixa nos meus olhos, como é que eu continuo? Afinal, você está me ouvindo ou não?

              Talvez devamos reformular, mais ou menos desta forma:

                        Enquanto eu falo com você, você olha nos meus lábios. Minhas palavras penetram nos seus ouvidos, são levadas até o seu cérebro e, lá, não são filtradas, pelo simples fato de que você não possui filtros. De tudo que eu lhe passo, você guarda apenas e tão somente o que lhe é verdadeiro. Enquanto você me ouve, fico olhando os seus olhos, mas não consigo olhar dentro deles. Não preciso perscrutar suas expressões para saber se você acreditou nas palavras que lhe disse. Você sempre sabe quando estou sendo sincero, porque não ouve com os sentidos, mas com as sensações. E jamais conseguiria mentir para você, porque não se pode mentir para um anjo. E você é um puro anjo de barro.”