DIETAS (?)

           Ninguém sabe o que é o autismo. Por algumas décadas, ninguém vai ficar sabendo. A ética não permite vasculhar um cérebro vivo e, mesmo que aparecesse um Menghele fazendo testes, os resultados estariam sempre invalidados, porque o cérebro reage aos estímulos recebidos, falseando os resultados pretendidos.

           Até simples testes de ressonância magnética interferem no funcionamento cerebral. Os resultados que a máquina registra não seriam assim se ela não estivesse emitindo estímulos para obter aqueles dados. Ou seja, vamos ficar muito tempo sem saber a causa real do autismo, se é que um dia iremos saber. Para continuar trabalhando e melhorando a vida de nossas crianças, temos que deixar para um segundo plano o conhecimento das causas, e trabalhar com os efeitos, que podemos observar. Afinal, há centenas de teorias no cardápio, até eu mesmo tenho uma, tão especulativa e impossível de ser provada quanto todas as outras.

           Alguns pesquisadores sugerem dietas alimentares para autistas, baseados nas suas teorias particulares, uma daquelas centenas do cardápio. Não sou nutricionista, não sei avaliar os benefícios ou os transtornos que essas dietas causam no organismo. Sei calcular, com relativa certeza, os males que uma dieta dessas causa no aparelho psíquico, na interação da criança com os cuidadores, e na provável instalação de uma ego-distonia no autista.

           A maioria das crianças e jovens autistas que conheço e que têm transtorno alimentar apresenta uma interessante característica: estão sempre com peso e altura normais, não apresentam anemias, fraquezas, cansaços, não ficam gripados mais do que a média, quase não adoecem. Mesmo se alimentando “mal”, nos padrões de seus pais, desenvolvem-se fisicamente como a média da sua idade. Pode significar que economizam a energia que consomem, ou que se alimentam com o estômago, não com os olhos, como a maioria de nós.

           Acontece que, ao forçar uma alimentação não desejada pela criança, seus cuidadores estão sendo invasivos, controladores, ditatoriais, aos olhos da criança. Passa a acumular seu transtorno invasivo com mais uma invasão, e mais um transtorno, desta vez causado por aqueles que a amam e que a querem ver bem. Aos olhos dessa criança, é mais uma reprovação recebida, mais uma não aceitação ao que ela é. Afinal, acho que concordamos que o que escolhemos comer faz parte do nosso ser, por isso existem vegetarianos, onívoros, carnívoros, veganos, entre outros. Comemos o que acreditamos estar de acordo com nossa filosofia de vida, não exatamente o que é necessário ao organismo.

           Perceba os animais: comem aquilo que é da sua natureza, um elefante jamais comerá carne, um cavalo não comerá erva venenosa. Seus instintos são apurados, sem a interferência dos bombardeios sociais a que o ser humano está sujeito. Se nós conseguíssemos apurar nossos instintos ao nível animal, descobriríamos que comemos mais do dobro do que nosso organismo necessita, e que envelhecemos mais depressa, e com menos qualidade, graças ao esforço extra e desnecessário que nosso organismo faz para consumir o excesso que ingerimos.

           Tenho a compreensão de que dieta é necessária em certas doenças, como diabetes, colesterol, fenilcetonúria, hipertensão, Willians. Tenho a convicção firmada de que dieta não é necessária para autistas que não têm qualquer comorbidade. Não posso provar que não funciona, assim como os adeptos da dieta não podem provar que funciona, mesmo mostrando exemplos dispersos. Posso provar, por outro lado, que a introdução da dieta deteriora a relação, e que é uma violência desnecessária. Ainda nesta semana, deparamo-nos com o caso da falsa psicóloga carioca que está sendo processada por tortura, porque obrigava as crianças a comer o que não queriam.

           A dieta que funciona com autistas, e que tenho comprovado empiricamente, é a dieta sensorial. Este termo foi lançado pelo Dr. Gillberg, e refere-se a criar um ambiente favorável a todos os sentidos da criança. Trabalho bastante o tema, e temos criado ambientes no lar e na escola que facilitam o trabalho dos cuidadores e o progresso da criança: sons baixos, cores suaves, odores leves, material didático que explore o tato, alimentos que sejam agradáveis ao paladar de cada um.

           Mas se você é adepto da dieta alimentar para autistas, e acredita que funciona, pelo menos faça um favor a si mesmo e ao seu filho: antes de começar, leve-o ao pediatra, faça um exame apurado para verificar o seu estado de saúde, peso, altura, qualidade do sangue, das fezes, da urina. E retorne seis meses depois, para comparar tudo isso.

Manuel Vázquez Gil