EMPATIA

Empatia, você sabe, é a capacidade de entender o outro, o que pensa, o que sente. Colocar-se no seu lugar, perguntar-se o que faria, se estivesse passando aquilo que ele passa. Compreender suas angústias e decisões. Empatia é a forma mais simples e rápida de conquistar e manter amizades e relacionamentos. É também um sentimento difícil de aperfeiçoar, precisamos nos esforçar bastante, perder medos, mudar conceitos, abrir mão de certezas para agir empaticamente.

Há uma corrente bastante significativa de pesquisadores que garante que autistas não têm empatia. Pesquisadores chamam à empatia de Teoria da Mente. Garantem que um autista é incapaz de perceber o sentimento ou “adivinhar” o pensamento do outro, expresso em emoções ou gestos. Esse postulado tem levado pessoas comuns a se relacionar com autistas como se verdadeiramente eles fossem desprovidos dessa faculdade, o que se traduz na falta de cuidados com os próprios gestos ou palavras: por que devo tomar cuidado, se ele não vai mesmo entender?

Não faz muito tempo que os médicos garantiam que um sujeito em estado de coma não ouve, não sente, não vê. Falava-se absurdos à cabeceira do doente, certos de que não estávamos sendo observados. Há dúvidas sobre isso, hoje em dia, quando já se consegue “ressuscitar” indivíduos de um coma prolongado.

Digo isso para insistir na diferença entre “saber” e “expressar esse saber”. Não é porque não conseguem expressar o sentimento que autistas não sentem. Eles têm, sim, empatia. Só não conseguem verbalizar. Isso causa-lhes angústia.

Há um peso insuportável sobre os pequenos ombros de uma criança autista: ela é a causadora da infelicidade, muitas vezes da destruição da família. É dela a responsabilidade pelos transtornos e despesas crescentes que balança o orçamento familiar. Ela restringe a vida social dos membros da sua família. Ela desequilibra e entristece aqueles que a amam. Diante desse quadro, que não consegue mudar, ela se isola. Ficaria louca, se não se isolasse.

Sentada no meio da sala, fixa os olhos num ponto qualquer da parede. No meio do mar revolto, seu pequeno barco não encontra o cais. As ondas são maiores do que consegue suportar, então lança a âncora, o ponto indefinido da parede é uma âncora que pode impedir o destroçar do barco.

Eu observava meu filho nessa inflexão, e sentia muita dor. O incompreendido me trazia dor. Instintivamente, sentava junto a ele, perto o suficiente para que me notasse, longe o suficiente para evitar o toque, e ficava olhando para o mesmo ponto. Quer dizer, talvez fosse o mesmo, acho que era o mesmo. Ficava ali, até que ele desistisse. Queria que visse, que sentisse, que havia alguém mais no barco, ou para afundar junto, ou para se agarrar em algum destroço e não ficar só no meio do grande oceano.

Ficava em mim uma necessidade: qual era mesmo o ponto? Havia importância na sua localização? Se eu conseguisse observar o mesmo ponto, exatamente o mesmo, compreenderia melhor a situação?

Resolvi, um dia, desenhar um grande círculo azul na parede. No centro desse círculo, um pequeno círculo branco, do tamanho de uma moeda. Desde aquele dia, meu filho procurava aquela parede para observar, e fixava o olhar no círculo branco. Então eu já sabia exatamente onde deveria fixar o meu. Os isolamentos foram rareando, rareando, e são muito raros hoje, quatro anos depois.

Talvez eu tenha dado a ele um porto seguro, um local exato onde ancorar. Talvez ele fizesse daquele ponto branco o centro do seu universo particular. Talvez a cor azul predominante auxiliasse no processo de acalmar o mar revolto do seu interior. Tenho várias hipóteses, e você é capaz de pensar em muitas outras. Mas tenho uma, em particular, que gosto: não era o ponto branco, o círculo azul, a certeza do ponto onde ancorar; era a minha companhia, a minha insistência em também ficar, em também fitar.

Não, ele não sabia expressar a empatia que sentia por mim. Mas reconhecia a empatia que eu tinha por ele, e isso lhe bastava para compreender que eu sabia o que ele sentia, tudo o que ele precisava era que alguém soubesse o que ele sentia.

Acostumamo-nos a pensar que autistas não dominam a Teoria da Mente, não têm empatia, quando na verdade somos nós que não os compreendemos. Não compreendemos seus gestos, suas atitudes, suas idiossincrasias, seus rituais. Não somos empáticos, somos arrogantes, não consideramos a hipótese simples de conhecê-los no seu habitat.

Sentado por minutos diante do grande círculo azul, os olhos fixos no pequeno ponto branco, eu aprendi mais, muito mais, infinitamente mais do que em mil livros. Aprendi, em especial, que a empatia de um autista é enorme, é muito maior que a de todos nós.

Sentados, imóveis, o olhar parado, nós dois assistimos dezenas de vezes o mar se acalmar, e o barco, de novo, navegar na direção da praia, macio, seguro em direção ao porto.

Manuel Vázquez Gil