Conheciam-se desde sempre. Para dizer a verdade, ele a vira nascer. Nunca se separaram, jamais encontraram motivos para fincar distâncias ou personalidades. Eram um, na essência da palavra, duas almas entrelaçadas por um fio invisível e inquebrantável, como espiral de DNA.

           Ela ficara órfã ainda pequena. O pai dele partira, em busca de novas terras, novas oportunidades. Não voltou. Ficaram, ele e a mãe. E ela, sempre presente. Meninos forjados adultos, muito, muito antes do tempo e do corpo que deveriam ter para executar as tarefas que ficaram, e que tinham que ser feitas.

           Mas cresceram e se amaram. Sabendo tudo um do outro, absolutamente tudo, se amaram. Amor condenado à eternidade, porque isento de segredos, de sobressaltos. Amor que nasceu como as flores do campo: naturalmente, sem que ninguém houvesse plantado ou regado. Um pássaro, uma abelha, uma borboleta, talvez o próprio vento, a mera força da gravidade. Uma semente que cai, que germina, que cresce, como um milagre divino. Tão natural, tão moldado a tudo em volta, que ninguém nota, ninguém incomoda, ninguém inveja. Apenas admira.

           Tiveram filhos e netos. Construíram uma vida, espiritual e material. Ele, poeta eternamente apaixonado pela vida, pelos amigos, pela mulher, pelos filhos, dele e dos outros, era exemplo de tolerância, de paciência infinita, Jó feito real. Ela, prática como toda mulher, pragmática na maneira como carregava a família, acolhia tudo e todos sem cansaço, sem preguiça.

           Não seria exagero dizer que todos os que os conheciam se apaixonavam por eles.
Um dia ele partiu. O anjo da morte desceu sobre e ele e fechou aqueles olhos azuis da cor do céu, da profundidade do mar. Metade da bondade do planeta Terra estava deixando este plano, algo de repente se quebrou. Parecia, à primeira vista, uma injustiça divina, tirar dos que tanto precisavam, dos que tanto conseguiam dele. Mas ele partiu. Ela ficou.

           Voltou para o apartamento, agora vazio, absolutamente vazio. Pediu para que os filhos, os netos, os amigos fossem embora, queria ficar sozinha, reviver, relembrar, ficar com ele nos braços, acalentá-lo, amá-lo ainda outra vez.

           Noite alta, ela o viu, sorrindo, bem alto, no céu. Ele acenou, como se dissesse: vem! Ela foi. Voou sem asas, sentindo o vento no rosto, o prazer de não sentir o peso do corpo, da dor, da saudade. Não demorou a chegar. Ele a abraçou, carinhoso, apertou-a contra o peito. Ela se aninhou, como sempre, como eternamente tinha feito. Deitaram-se lado a lado, os corpos se aquecendo, as almas aquietadas, os corações em silêncio.

           Não fora até que a morte os separasse. A morte não conseguiu separá-los, indissolúveis que eram.

           Quando amanheceu, o zelador do prédio encontrou o corpo, estirado na garagem, um sorriso luminoso nos lábios, os olhos azuis profundos fitando o infinito.