II - A HUMANÍSSIMA TRINDADE – O FILHO


          Nos tempos modernos, especialmente de trinta anos para cá, ventos novos sopraram nos Congressos Nacionais. Um dos mais ativos nesse aspecto é o Congresso brasileiro, e nossa Constituição de 1988 traz avanços significativos na área, igualando os direitos universalmente e levando a sério, pelo menos no espírito da lei, o lema da Revolução Francesa. Mães e pais passaram a ter o mesmo direito sobre os filhos, e já não há espanto quando um pai fica com a guarda, ou a guarda é compartilhada entre os dois. Mesmo assim, nossa sociedade ainda é conservadora, e subtrai o pai da linguagem e do tratamento comum.

           As escolas mandam bilhetes à “querida mamãe”, mesmo quando o pai, ou um dos avôs, vai levá-la, buscá-la, participa das reuniões. Conheci alguns casos de bilhetes à mamãe entregues a viúvos. As reportagens que lemos ou ouvimos falam da “dor da mãe” ao receber algum diagnóstico, da “alegria da mãe” ao saber de algum milagre. São coisas tão arraigadas no imaginário popular, que é muito comum falar que um bom pai tem “coração de mãe”, ou então que é um “pãe”. Encontramos justificativas para casos dolorosos em que a mãe abandona o filho no lixo, no lago, no terreno baldio, mas não encontramos justificativa alguma para um pai que abandona seu filho, quando nenhum desses atos deveria receber complacência. E compreendemos um filho que odeia seu próprio pai, mas não um que odeia sua mãe.

           Chegamos ao filho: sob um olhar psicanalítico, um filho tem mil razões para odiar a mãe, e vice-versa. Olhar psicanalítico quer dizer inconsciente, nada do que vai dito aqui faz parte da vontade consciente de nenhum dos dois, a menos que haja alguma patologia séria. Dizia das razões do ódio: o filho alterou radicalmente a vida, o corpo, a relação familiar, o emprego da mãe. Todo acontecimento inédito na família transforma os papéis dessa família, e uma gravidez também. Do outro lado, o filho teve que suportar, por muitos meses, ataques do sistema de defesa da mãe, tentando destruí-lo. Não é fácil a vida dentro de um útero: além de muito apertado, é barulhento, os próprios refluxos internos do corpo fazem muito ruído, e é instável, muito delicado e frágil. A gravidez é um milagre que a ciência não explica, e o parto é um desejo dos dois de separação, de dar um fim aos incômodos: não só a mãe tem contrações, mas também o filho faz força para sair.

           No entanto, mãe e filho não se odeiam, e comumente se amam. Socialmente, aprendem que tem que ser assim. Não no princípio da relação: um bebê pequeno acha que tem duas mães, a que amamenta e cuida, e a que abandona e sai. A que beija e a que briga. Melanie Klein chamava a isso posição esquizo-paranóide: a criança está paranoica por achar que tem uma mãe esquizofrênica. Essa condição muda, quando a criança percebe que a mãe é apenas uma, e se torna posição maníaco-depressiva. Afinal, quem não fica depressivo depois de uma descoberta dessas, de que a mãe não é esquizofrênica, mas maníaca?

MANUEL VÁZQUEZ GIL