I - A HUMANÍSSIMA TRINDADE – A MÃE

           Em fins do século XVIII, a Revolução Francesa inaugurou um novo e admirável mundo: derrubando a monarquia e instituindo uma República, cujo poder emanava do povo e era voltado ao povo, esse movimento mudou a face do Ocidente. O lema da nova nação era Liberdade, Igualdade, Fraternidade, três substantivos maiúsculos que, por si só, constroem uma nação justa.

           Ao tomarem o poder, os novos líderes, em especial Dalton e Robespierre, logo perceberam que esses lemas só seriam conseguidos se todos fossem iguais em direitos e deveres. Em especial, se todas as crianças francesas estivessem na escola. Constituíram um grupo de filósofos e pedagogos, e encomendaram um projeto para assegurar esse direito.

           Algum tempo depois, esse conselho de sábios informou aos dirigentes que a tarefa não poderia ser cumprida, por um motivo singelo: as crianças não tinham mãe! Isso mesmo, elas não tinha mãe. As mulheres davam à luz aos filhos, e entregavam aos cuidados de uma ama, que, inclusive, os amamentava. Assim que estivessem um pouco maiores, passavam a ver a mãe à mesa de refeições, para onde a ama os trazia, e depois os levava novamente.

           Elaborou-se um projeto de propaganda intensiva, no intuito de valorizar o papel da mãe, onde se sublinhavam os lados positivos do exercício da maternidade, para ambos os lados. Deu-se à condição de mãe um ar divino e insubstituível. A Constituição incluiu capítulo especial, onde dava todo o poder pátrio às mães. O projeto foi um sucesso, as mulheres passaram a acreditar no poder ilimitado da maternidade, e a universalização do ensino foi sendo alcançado.

           Todas as Constituições modernas dos países ocidentais foram influenciadas pela francesa, e pelos pensamentos positivistas de seus líderes. Alguns países católicos foram muito além, e elegeram a madrinha de batismo da criança como segunda na sucessão: se a mãe falecesse, a criança ficaria com a madrinha, não com o pai. A madrinha tinha o direito de escolher o nome do recém-nascido. Se dependesse do desejo de meus pais, eu me chamaria Alejandro, estaria na moda e de bem com Lady Gaga, mas minha madrinha decidiu por Manuel, e assim foi feito. Também a Constituição Brasileira navegou nesse oceano, e inclusive o lema da nossa bandeira é positivista, de inspiração da Revolução Francesa.

           Essas considerações trouxeram um lado extremamente positivo, que foi o de valorizar a maternidade e proteger legalmente a mãe, com suas implicações de melhores cuidados e desenvolvimento infantil e um relacionamento mais estreito mãe/filho. Por outro lado, provocaram um lado excessivamente negativo, que foi o alijamento do pai desse processo familiar. Durante dois séculos, o poder pátrio da mãe foi levado às últimas consequências e, em separações de casais, sob hipótese alguma o pai ficava com a guarda. Sabemos que filhos ficam mais bem amparados com as mães, mas sabemos também que umas poucas mães não reúnem requisitos básicos para cuidar de seus filhos. Esse “detalhe” não interessava aos juízes ou aos legisladores, porque mãe era divina pela própria natureza.


Manuel Vázquez Gil