III - A HUMANÍSSIMA TRINDADE – O PAI


           A excessiva divinização do papel da mãe tirou dela um pedaço do aspecto humano. Mais: dentro de uma relação a três, em que as três pernas do tripé deviam ser igualmente valorizadas, não sobra espaço para o pai. Criança alguma cresce psicologicamente completa e equilibrada se faltar um dos genitores no seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que pais se afastam dessa tarefa, como se fosse uma “vingança” pelos duzentos anos de exílio que a Revolução Francesa lhes causou, a sociedade como um todo dá a ele o álibi para esse afastamento, visto que a relação não é justa: como um pai humano pode competir com uma mãe divina?

           Acontece que autistas precisam de pais, mais do que qualquer criança. Interagem melhor com o pai, há maior empatia entre os dois, provavelmente porque todo homem é parcialmente autista: fala pouco, é antissocial, focado no detalhe, desastrado nas tarefas de coordenação motora. Desgraçadamente, autistas são mais abandonados pelos pais do que a média das crianças não autistas: o próprio diagnóstico faz com que se afastem, não queiram ou não possam conviver. Daí este longo artigo.

           Chegamos a uma nova era. É preciso trazer humanidade ao lar, tratar os acontecimentos e as pessoas como elas exatamente são. Não é verdade que a maternidade é uma coisa divina. No caso da mulher, é uma condição humana, e muito humana. Humanidade é uma qualidade que se equipara à divina: alguém poderia me dizer se Jesus foi quem foi mais por sua condição divina ou mais por sua condição humana? A civilização toda mudou em função de sua condição humana, o sofrimento e a morte. Morreu para nos salvar. Não é demérito algum, muito pelo contrário, a condição humana.

           Talvez pudéssemos tornar o pai mais humano, se a mãe fosse menos divina. Isso traria muitos ganhos para o filho. Entender que pai e mãe são tão humanos quanto ele, que erram, choram, pecam, falham, poderia ajudá-lo a se compreender. Você já imaginou a dificuldade de um filho, falho e humano, tendo que lidar com a figura divinizada de uma mãe? Amar, não importa sob que peso, respeitar em qualquer situação, mesmo nas mais injustas, glorificar mesmo em situações mesquinhas.

           Não sou ingênuo. Sei que estas ideias não são exatamente neutras, que vão causar celeumas, discussões, ainda mais vindas de um pai. No entanto, estou disposto a assumir as consequências, se isso servir para um princípio de debates. Precisamos de mais humanos e menos deuses. Convoco todas as mães e pais para refletirmos sobre isso, para encontrarmos o caminho mais seguro para a Humaníssima Trindade.


MANUEL VÁZQUEZ GIL