Talvez a grande causa do rompimento entre Sigmund Freud e Karl Jung, o inconsciente coletivo explica, de maneira tão clara e incontestável, como se dá a transmissão de valores e conceitos entre as várias gerações. De modo sucinto, dá razão a Darwin e questiona o espiritismo.

        Jung não disse isso, é uma inferência toda pessoal minha. Mas é lógica, racional e, como insinuado acima, clara e incontestável. Pode ser, intimamente, uma discreta puxada da sardinha na direção da minha brasa, mas é, sem dúvida alguma, um convite à reflexão, à discussão.

        Por partes: Freud dividiu a psique humana em três instâncias. O Id, totalmente inconsciente, é movido pelo princípio do prazer, é inconseqüente, aético, amoral, não tem qualquer compromisso com o que seja racional; o Superego, totalmente consciente, corresponde à lei, à ordem, à disciplina, às regras sociais; o Ego, parte consciente e parte inconsciente, é responsável pela negociação entre as duas instâncias anteriores, antagônicas e radicais.

        Jung pensava que, além dessas havia outras, entre elas o Inconsciente Coletivo, espécie de depósito das características da raça humana, herdada de nossos antepassados. Essa entidade seria responsável por nos fornecer, geneticamente, funções que, independentemente do meio em que nascermos ou crescermos, surgirão inevitavelmente: mesmo Rômulo e Remo, ou Tarzan, o rei dos macacos, embora não conhecendo seres humanos e sendo criados por animais, andaram eretos sobre os pés no seu devido tempo.

        Nesse Inconsciente Coletivo estão dados da história da humanidade. Talvez Skinner tivesse pacificado a discussão sobre esse fato: ele sustentou que o homem individual é fruto de um tripé: a herança de seus pais, a herança da raça humana e o meio onde cresce. Mas Skinner estava do outro lado do oceano e da linha filosófica da Psicanálise, então ele não contava. Pelo menos enquanto estivessem todos vivos, que os vivos não aceitam pacificações.

        Gênios ambos, Freud e Jung amaram-se como pai e filho e seguiram o caminho que seguem os que se amam: brigaram pela herança. Eram fascinantes nas suas concepções intelectuais e nas suas contradições flagrantes. Freud era judeu e agnóstico; Jung não precisava acreditar em Deus, pois sabia, e apenas crêem os que não sabem. Decifra-me ou te devoro.

        Como todo pai cujo filho não obedece, Freud deixou Jung de castigo e ficou com a Psicanálise. Como todo filho cujo pai não compreende que deve ser ultrapassado, Jung criou a Análise. E foram ambos infelizes para sempre, Freud com o seu câncer, Jung com a saudade. Mas o Inconsciente Coletivo ficou, em todos que os seguiram, como a comprovar a teoria do segundo.

        Manifestei, em artigo, a convicção da origem biológica da segunda tópica de Freud: o médico, observando a célula e suas funções, verificou a analogia: o Id seria o núcleo celular, o citoplasma, o Superego e a membrana, o Ego. Basta verificar as funções dessas três partes, para compreender a semelhança. Uma célula assexuada completa sua divisão em quarenta minutos, o mesmo tempo admitido por Freud para uma sessão terapêutica. Há mais coincidências, entre as fases da mitose e as fases da terapia, mas não é assunto aqui.

        Aqui, falo do Inconsciente Coletivo sob minha perspectiva. Quero dividi-la com você:

        Somos fruto de uma única célula, o ovo ou zigoto. Sucessivas divisões fazem surgir duas, depois quatro, depois oito, dezesseis, numa progressão geométrica, até o completo desenvolvimento. Essa célula mater traz nela toda informação do que viremos a ser: altura, peso, cor de pele, de olhos, sinais particulares, propensão a doenças, tempo de vida, tudo. Não é admirável que uma criança nasça com um sinal, ou a cor dos olhos, de um tataravô distante? Isso é o que Skinner fala sobre a herança genética. Mas não é a herança da espécie.

        Jung sugere que, se na célula original tudo está programado, também as memórias dos antepassados lá estão, gravadas. Mas são inconscientes. Coletivos. Ficam presos no Id e passam suas sugestões de modo inconsciente. Aí, andamos, falamos, pensamos, sem ter que parar para raciocinar como é que conseguimos. Mas, em estados especiais de mente, podemos abrir (ou ter aberta) essa porta, e então falamos alemão, ou lembramos de lugares nos quais nunca passamos. Porque estava na memória coletiva, inconsciente.

        O homem deveria procurar, para se compreender e ser realizado, conhecer o Self, o eu verdadeiro. A análise junguiana procurava esse fim. Mas ele mesmo declarou que, na sua caminhada, só conheceu um homem que alcançou o Self, ele mesmo. Na quase impossibilidade nossa de atingir o grau que o mestre atingiu, podemos pelo menos procurar compreender algumas noções que nos legou. A mais importante delas, sob meu ponto de vista, foi a noção do Inconsciente Coletivo.

        Porque pode ajudar a desvendar um mundo muito mais simples, sem teorias discutíveis como a reencarnação, a mediunidade, o design inteligente, a própria figura do Deus cristão, que tudo cria e controla. E pode ajudar a compreender como as sucessivas gerações vêm evoluindo, guiadas pelas próprias experiências do seu inconsciente. Que, por ser Id, não podemos controlar, ao contrário, e fica livre tanto de nossas paixões impulsivas, quanto de nossas repressões injustificáveis.

        E o que isso tudo tem a ver com meu campo de pesquisa, o autismo? Ora, tudo. Há uma diferença profunda entre memória e lembrança. A memória compreende noções aprendidas e armazenadas no córtex cerebral, a evocação da memória depende exclusivamente do bom funcionamento do córtex. A lembrança tem componentes afetivos, e deve ser modulada pelo sistema límbico. É um processo mais complexo, e a lembrança sempre acaba afetada pelos acontecimentos observados no ato da ocorrência, quanto dos afetos sentidos no momento da evocação.

        É o ponto: de memória prodigiosa, autistas não têm lembranças, porque não funcionam afetivamente exatamente como não autistas. Têm inconsciente coletivo, frutos que foram de uma célula mãe, mas não modulam seus aparecimentos com o uso dos afetos. Se não compreendermos isso, não conseguiremos ajudá-los convenientemente.

        Mas compreender isso não é difícil, desde que nos dispamos de pré-conceitos colados dentro de nós, morais, éticos, religiosos, sociais, individuais. Esse desprendimento é, provavelmente, a origem da célebre declaração de Jung, última resposta da última entrevista que concedeu, antes de voltar a ser pó: “não preciso acreditar em Deus, eu sei.”

        No próximo capítulo discutiremos noções do espelho de Lacan e suas implicações no acompanhamento e desenvolvimento de uma criança autista. Até lá, olhos à obra: vamos revisitar Jung, compreender Ânima, Ânimus, Self, Inconsciente Coletivo. Se você achou que ia entender autistas lendo sobre autismo, estava um pouco enganado.

        A solução do enigma nunca está no próprio enigma.