Nosso olhar não apenas vê o outro: nosso olhar modifica o outro. Não existe a observação isenta, o observador sempre muda o comportamento do observado. Então, quando você finalmente me conhecer, não vai conhecer o que sou, mas aquele que você modificou.

           Daí a minha proposta: nefelibatas não racionalizam, não buscam porquês, não observam; deitados em sua nuvem, apenas viajam ao sabor dos ventos. E amam um ao outro como Ele nos amou. Constroem castelos no ar e, depois do castelo pronto, apenas colocam as colunas. Assim, de cima pra baixo, que não é a direção das construções humanas, mas é a lógica das construções divinas.

           Você pode jamais vir a me conhecer como exatamente sou. Jamais vou conhecer você como exatamente é. Mas isso não muda nada, não importa nada: você me escolheu porque sou como sou, e eu sou exatamente como você me escolheu. O escolhedor pode mudar a sua escolha, é o agente ativo. O escolhido não tem escolha, é o agente passivo da ação.

           Então, não me importo em saber quem você é, como é, quanto é. Apenas me importa, e me cativa, que você é, e que cruzou o meu caminho...

           ...Mesmo que a semente que plantamos teime em não crescer, e que descubramos algo que nos torne incompatíveis, ainda que tudo possa dar errado, e mesmo que eu tenha que voltar para minha solidão, só esse gesto seu valeu a pena, valeu tudo, valeu um universo todo.







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