Até 1727, o nheengatu era a língua oficial do Brasil. Criada a partir do dialeto tupi-guarani, à qual os jesuítas acrescentaram regras gramaticais da língua portuguesa, era falada por aproximadamente 70% da população brasileira. Até os colonos portugueses que aqui se instalavam aprendiam e falavam o nheengatu, uma forma de facilitar a comunicação entre os povos que constituíam este país mestiço.

     Nesse ano, o Marquês de Pombal, sob ordens do rei de Portugal expulsou os jesuítas e baixou um decreto proibindo o uso de nheengatu. Estava instituída a obrigatoriedade do idioma português de Portugal no nosso país, numa demonstração de quem é o colonizador e quem é o colonizado.

     Como nenhuma lei é capaz de sufocar raízes, mesmo que corte as árvores, as regionalidades ficaram. Hoje, num passeio pelo Brasil, encontram-se idiomas diferentes em diferentes regiões, embora o idioma oficial seja o Português. Pode-se proibir, mas não se pode impedir. Dessa forma, a linguagem escrita, que deve seguir a norma, difere da linguagem oral.

     Isso se dá porque aprender a falar independe de conhecimentos de regras gramaticais. Quando a criança chega à escola, onde vai aprender a regra culta, já fala tudo o que precisa para se comunicar, e fala como ouviu os adultos falando. Gosto dessa resistência linguística, que preserva nomes e costumes regionais e que identifica famílias e povos. Escrevemos um português, porque um português, cumprindo ordens de outro português, nos obrigou. Mas falamos nheengatu, aqui pra vocês, ó!

     Daí que, no mundo atual, leva vantagem expressiva aquele que consegue dominar os diversos idiomas orais que perpassam os grupos sociais. Alguém que fala a língua daqueles que o escutam sempre será escutado. Fazer um discurso prolixo e rebuscado para jovens da periferia não vai segurar a atenção de ninguém por mais de um minuto. Manter-se inflexível na defesa da norma culta em reuniões informais é uma grande bobagem e uma forma de se isolar do grupo.

     Dessa forma, assim como é um pecado gramatical escrever livros didáticos, jornais e revistas com erros da norma culta, é um pecado maior falar o tempo todo nessa mesma norma. Fui ver, em junho do ano passado, uma exposição no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, chamada “Menas, o certo do errado e o errado do certo”. Era sobre o tema que descortino aqui. Lá dentro, sete instalações mostravam aos visitantes como lidar sem preconceito com as formas em uso no português brasileiro. O próprio título da mostra soa como provocação, brincando com a variante do advérbio "menos", por princípio invariável.

     “A exposição, de maneira divertida, mostra por que saímos do padrão culto muitas vezes sem nos darmos conta”, explica Antonio Carlos de Moraes Sartini, diretor do museu. ”O objetivo é mostrar que os brasileiros não falamos nem mais nem menos fora do padrão culto que italianos, americanos e franceses", e todo idioma tem variações que são usadas em certas situações e para diferentes públicos.

     Eu aprendi isso a fórceps: oriundo de um país que tem uma língua oficial (o castellano) e inúmeros idiomas regionais, e onde as crianças aprendem ambos na escola (na Galícia, a escola ensina o Galego e o Castellano, mas fala-se apenas o galego; em Barcelona as crianças aprendem Catalão e Castellano, mas fala-se apenas o catalão), tinha em mente que as pessoas não aprendem uma só língua, e que o que se escreve não é o mesmo que se fala.

     Olhe como isso me ajudou: hoje, nas minhas jornadas em bairros da periferia, favelas e palafitas, consigo passar um domingo inteiro conversando com as pessoas na língua delas, o que facilita a comunicação e garante a segurança. E garanto que, mesmo que a língua delas seja diferente, fazem as redações na escola como eu fiz. Apenas e tão somente, criar e manter idiomas orais próprios de um grupo corresponde a lutar contra a dominação, aculturação e colonização do pessoal que vem de fora. Não significa ignorância, significa lutar contra invasões estranhas, personificar e solidificar culturas. Que o digam Adoniram e suas composições inigualáveis (ou você ainda acredita que ele não sabia falar português?).

     Não impede que, no dia seguinte, eu vá à Universidade proferir uma palestra sobre as diferenças entre a Epistemologia Genética de Piaget e a Zona de Desenvolvimento Proximal de Vygostski e, aí sim, usar a norma que Marquês de Pombal impôs.

     O difícil é convencer as pessoas mais cultas que isto que estou fazendo aqui na internet é um papo informal, uma conversa com amigos em torno de uma churrasqueira e uma cerveja geladinha. Isto não é um livro, um dicionário, isto é um papo de amigos. Se meus amigos cultos ficarem corrigindo o tempo todo o meu nheengatu, não vira, mano.