Conheci Edna Feitosa do modo como se conhecem as pessoas que vão mudar nossa vida: inadvertidamente, sem aviso, no lugar mais improvável, onde temos certeza de que essas pessoas não estão. Impressionou-me seu rosto: uma mulher bonita que, por timidez ou franqueza, tenta em vão esconder tal beleza por trás de um par de óculos, uma foto não editada.

        Mas o que me incomodou foi a singeleza da sua sensibilidade, um afeto de criança tentando se esconder sob o manto da adulta responsável. Como todo afeto, explode em algum momento, mostra os dentes quando incomodam o objeto desse afeto. Quando conheço pessoas raras assim, tento com que me mostrem essas explosões. Pela primeira vez, não tentei, tão delicada era minha nova amiga.

        Achei que poderia ficar algum tempo afogado no processo de absorver o enorme talento dessa moça. Namorei intensamente sua arte, sua poesia, adolescentemente enamorado dos seus quadros feitos com giz colorido. Foi o mais fundo exemplo que tive da essência da arte: alguém que concebe obras-primas que, de tão voláteis, tão frágeis, podem ser destruídas – e vão ser- com um simples apagador. Talento e desapego, uma mistura improvável que nos uniu para sempre, ou até que ela se canse de mim e me mande lamber sabão.

        Ela me pediu para enviar alguns textos para publicação neste site. Talvez tenha percebido parte desse desapego que classifica sua arte. Em menor grau, também eu gostaria de distribuir o que tenho, graciosamente, para que as pessoas usufruíssem do modo como quisessem. Hesitei, não tenho talento. Ela insistiu, aquela insistência da criança que amamos, e a quem vamos ceder com certeza. Acho que ela sabia disso.

        Da insistência dela e da minha vontade de ceder surge este trabalho. Uma tese de doutorado ministrada a conta-gotas, recheada de algumas poesias, alguns contos, algumas fugas nefelibatas. Cabe ao raro leitor separar o que é ciência do que é arte, que isso eu não sei fazer, porque esta tese está em simbiose com a minha própria vida.

        De certa maneira, nesta nossa caminhada comum, você vai poder perceber que o que faço, a despeito das pesquisas empíricas e das intervenções dentro de padrões científicos, o que faço é uma arte paralela, mais paralela que arte. Todo rio corre para o mar, menos o Tietê. Sou o rio Tietê, que corre para o interior. Aprendi que não conseguimos tomar banho duas vezes no mesmo rio não porque no segundo mergulho já não é a mesma água, mas porque já não somos mais os mesmos.
       Como em tudo o que faço, mergulho neste lago que Edna me empresta. Com um enorme prazer e muito orgulho de fazer parte deste universo. Mas tenho que confessar que é menos pelo prazer de participar, que existe, e mais pela oportunidade de ficar perto desta mulher especial.


Manuel Vázquez Gil